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terça-feira, 11 de janeiro de 2011

O império do consumo

Envolverde

30 de dezembro de 2010 às 11:25h

Esta ditadura da uniformização obrigatória impõe, no mundo inteiro, um modo de vida que reproduz os seres humanos como fotocópias do consumidor exemplar.

Por Eduardo Galeano


A produção em série, em escala gigantesca, impõe em todo lado as suas pautas obrigatórias de consumo. Esta ditadura da uniformização obrigatória é mais devastadora que qualquer ditadura do partido único: impõe, no mundo inteiro, um modo de vida que reproduz os seres humanos como fotocópias do consumidor exemplar.

O sistema fala em nome de todos, dirige a todos as suas ordens imperiosas de consumo, difunde entre todos a febre compradora; mas sem remédio: para quase todos esta aventura começa e termina no écran do televisor. A maioria, que se endivida para ter coisas, termina por ter nada mais que dívidas para pagar dívidas as quais geram novas dívidas, e acaba a consumir fantasias que por vezes materializa delinquindo.

Os donos do mundo usam o mundo como se fosse descartável: uma mercadoria de vida efémera, que se esgota como se esgotam, pouco depois de nascer, as imagens disparadas pela metralhadora da televisão e as modas e os ídolos que a publicidade lança, sem tréguas, no mercado. Mas para que outro mundo vamos mudar-nos?

A explosão do consumo no mundo atual faz mais ruído do que todas as guerras e provoca mais alvoroço do que todos os carnavais. Como diz um velho provérbio turco: quem bebe por conta, emborracha-se o dobro. O carrossel aturde e confunde o olhar; esta grande bebedeira universal parece não ter limites no tempo nem no espaço. Mas a cultura de consumo soa muito, tal como o tambor, porque está vazia. E na hora da verdade, quando o estrépito cessa e acaba a festa, o borracho acorda, só, acompanhado pela sua sombra e pelos pratos partidos que deve pagar.

A expansão da procura choca com as fronteiras que lhe impõe o mesmo sistema que a gera. O sistema necessita de mercados cada vez mais abertos e mais amplos, como os pulmões necessitam o ar, e ao mesmo tempo necessitam que andem pelo chão, como acontece, os preços das matérias-primas e da força humana de trabalho.
O direito ao desperdício, privilégio de poucos, diz ser a liberdade de todos. Diz-me quanto consomes e te direi quanto vales. Esta civilização não deixa dormir as flores, nem as galinhas, nem as pessoas. Nas estufas, as flores são submetidas a luz contínua, para que cresçam mais depressa. Nas fábricas de ovos, as galinhas também estão proibidas de ter a noite. E as pessoas estão condenadas à insônia, pela ansiedade de comprar e pela angústia de pagar. Este modo de vida não é muito bom para as pessoas, mas é muito bom para a indústria farmacêutica. Os EUA consomem a metade dos sedativos, ansiolíticos e demais drogas químicas que se vendem legalmente no mundo, e mais da metade das drogas proibidas que se vendem ilegalmente, o que não é pouca coisa se se considerar que os EUA têm apenas cinco por cento da população mundial.

“Gente infeliz os que vivem a comparar-se”, lamenta uma mulher no bairro do Buceo, em Montevideo. A dor de já não ser, que outrora cantou o tango, abriu passagem à vergonha de não ter. Um homem pobre é um pobre homem. “Quando não tens nada, pensas que não vales nada”, diz um rapaz no bairro Villa Fiorito, de Buenos Aires. E outro comprova, na cidade dominicana de San Francisco de Macorís: “Meus irmãos trabalham para as marcas. Vivem comprando etiquetas e vivem suando em bicas para pagar as prestações”.

Invisível violência do mercado: a diversidade é inimiga da rentabilidade e a uniformidade manda. A produção em série, em escala gigantesca, impõe em todo lado as suas pautas obrigatórias de consumo. Esta ditadura da uniformização obrigatória é mais devastadora que qualquer ditadura do partido único: impõe, no mundo inteiro, um modo de vida que reproduz os seres humanos como fotocópias do consumidor exemplar.

O consumidor exemplar é o homem quieto. Esta civilização, que confunde a quantidade com a qualidade, confunde a gordura com a boa alimentação. Segundo a revista científica The Lancet, na última década a “obesidade severa” aumentou quase 30% entre a população jovem dos países mais desenvolvidos. Entre as crianças norte-americanas, a obesidade aumentou uns 40% nos últimos 16 anos, segundo a investigação recente do Centro de Ciências da Saúde da Universidade do Colorado.

O país que inventou as comidas e bebidas light, os diet food e os alimentos fat free tem a maior quantidade de gordos do mundo. O consumidor exemplar só sai do automóvel par trabalhar e para ver televisão. Sentado perante o pequeno écran, passa quatro horas diárias a devorar comida de plástico.
Triunfa o lixo disfarçado de comida: esta indústria está a conquistar os paladares do mundo e a deixar em farrapos as tradições da cozinha local. Os costumes do bom comer, que veem de longe, têm, em alguns países, milhares de anos de refinamento e diversidade, são um patrimônio coletivo que de algum modo está nos fogões de todos e não só na mesa dos ricos.

Essas tradições, esses sinais de identidade cultural, essas festas da vida, estão a ser espezinhadas, de modo fulminante, pela imposição do saber químico e único: a globalização do hambúrguer, a ditadura do fast food. A plastificação da comida à escala mundial, obra da McDonald’s, Burger King e outras fábricas, viola com êxito o direito à autodeterminação da cozinha: direito sagrado, porque na boca a alma tem uma das suas portas.

O campeonato mundial de futebol de 98 confirmou-nos, entre outras coisas, que o cartão MasterCard tonifica os músculos, que a Coca-Cola brinda eterna juventude e o menu do MacDonald’s não pode faltar na barriga de um bom atleta. O imenso exército de McDonald’s dispara hambúrgueres às bocas das crianças e dos adultos no planeta inteiro. O arco duplo desse M serviu de estandarte durante a recente conquista dos países do Leste da Europa. As filas diante do McDonald’s de Moscou, inaugurado em 1990 com fanfarras, simbolizaram a vitória do ocidente com tanta eloquência quanto o desmoronamento do Muro de Berlim.

Um sinal dos tempos: esta empresa, que encarna as virtudes do mundo livre, nega aos seus empregados a liberdade de filiar-se a qualquer sindicato. A McDonald’s viola, assim, um direito legalmente consagrado nos muitos países onde opera. Em 1997, alguns trabalhadores, membros disso que a empresa chama a Macfamília, tentaram sindicalizar-se num restaurante de Montreal, no Canadá: o restaurante fechou. Mas em 1998, outros empregados da McDonald’s, numa pequena cidade próxima a Vancouver, alcançaram essa conquista, digna do Livro Guinness.

As massas consumidoras recebem ordens num idioma universal: a publicidade conseguiu o que o esperanto quis e não pôde. Qualquer um entende, em qualquer lugar, as mensagens que o televisor transmite. No último quarto de século, os gastos em publicidade duplicaram no mundo. Graças a ela, as crianças pobres tomam cada vez mais Coca-Cola e cada vez menos leite, e o tempo de lazer vai-se tornando tempo de consumo obrigatório.
Tempo livre, tempo prisioneiro: as casas muito pobres não têm cama, mas têm televisor e o televisor tem a palavra. Comprados a prazo, esse animalejo prova a vocação democrática do progresso: não escuta ninguém, mas fala para todos. Pobres e ricos conhecem, assim, as virtudes dos automóveis do último modelo, e pobres e ricos inteiram-se das vantajosas taxas de juros que este ou aquele banco oferece.

Os peritos sabem converter as mercadorias em conjuntos mágicos contra a solidão. As coisas têm atributos humanos: acariciam, acompanham, compreendem, ajudam, o perfume te beija e o automóvel é o amigo que nunca falha. A cultura do consumo fez da solidão o mais lucrativo dos mercados.

As angústias enchem-se atulhando-se de coisas, ou sonhando fazê-lo. E as coisas não só podem abraçar: elas também podem ser símbolos de ascensão social, salvo-condutos para atravessar as alfândegas da sociedade de classes, chaves que abrem as portas proibidas. Quanto mais exclusivas, melhor: as coisas te escolhem e te salvam do anonimato multitudinário.

A publicidade não informa acerca do produto que vende, ou raras vezes o faz. Isso é o que menos importa. A sua função primordial consiste em compensar frustrações e alimentar fantasias: Em quem o senhor quer converter-se comprando esta loção de fazer a barba? O criminólogo Anthony Platt observou que os delitos da rua não são apenas fruto da pobreza extrema. Também são fruto da ética individualista. A obsessão social do êxito, diz Platt, incide decisivamente sobre a apropriação ilegal das coisas. Sempre ouvi dizer que o dinheiro não produz a felicidade, mas qualquer espectador pobre de TV tem motivos de sobra para acreditar que o dinheiro produz algo tão parecido que a diferença é assunto para especialistas.

Segundo o historiador Eric Hobsbawm, o século XX pôs fim a sete mil anos de vida humana centrada na agricultura desde que apareceram as primeiras culturas, em fins do paleolítico. A população mundial urbaniza-se, os camponeses fazem-se cidadãos. Na América Latina temos campos sem ninguém e enormes formigueiros urbanos: as maiores cidades do mundo e as mais injustas. Expulsos pela agricultura moderna de exportação, e pela erosão das suas terras, os camponeses invadem os subúrbios. Eles acreditam que Deus está em toda parte, mas por experiência sabem que atende nas grandes urbes.

As cidades prometem trabalho, prosperidade, um futuro para os filhos. Nos campos, os que esperam veem passar a vida e morrem a bocejar; nas cidades, a vida ocorre, e chama. Apinhados em tugúrios [casebres], a primeira coisa que descobrem os recém chegados é que o trabalho falta e os braços sobram.

Enquanto nascia o século XIV, frei Giordano da Rivalto pronunciou em Florença um elogio das cidades. Disse que as cidades cresciam “porque as pessoas têm o gosto de juntar-se”. Juntar-se, encontrar-se. Agora, quem se encontra com quem? Encontra-se a esperança com a realidade? O desejo encontra-se com o mundo? E as pessoas encontram-se com as pessoas? Se as relações humanas foram reduzidas a relações entre coisas, quanta gente se encontra com as coisas?

O mundo inteiro tende a converter-se num grande écran de televisão, onde as coisas se olham mas não se tocam. As mercadorias em oferta invadem e privatizam os espaços públicos. As estações de ônibus e de comboios, que até há pouco eram espaços de encontro entre pessoas, estão agora a converter-se em espaços de exibição comercial.

O shopping center, ou shopping mall, vitrine de todas as vitrines, impõe a sua presença avassaladora. As multidões acorrem, em peregrinação, a este templo maior das missas do consumo. A maioria dos devotos contempla, em êxtase, as coisas que os seus bolsos não podem pagar, enquanto a minoria compradora submete-se ao bombardeio da oferta incessante e extenuante.

A multidão, que sobe e baixa pelas escadas mecânicas, viaja pelo mundo: os manequins vestem como em Milão ou Paris e as máquinas soam como em Chicago, e para ver e ouvir não é preciso pagar bilhete. Os turistas vindos das povoações do interior, ou das cidades que ainda não mereceram estas bênçãos da felicidade moderna, posam para a foto, junto às marcas internacionais mais famosas, como antes posavam junto à estátua do grande homem na praça.

Beatriz Solano observou que os habitantes dos bairros suburbanos vão ao center, ao shopping center, como antes iam ao centro. O tradicional passeio do fim de semana no centro da cidade tende a ser substituído pela excursão a estes centros urbanos. Lavados, passados e penteados, vestidos com as suas melhores roupas, os visitantes vêm a uma festa onde não são convidados, mas podem ser observadores. Famílias inteiras empreendem a viagem na cápsula espacial que percorre o universo do consumo, onde a estética do mercado desenhou uma paisagem alucinante de modelos, marcas e etiquetas.

A cultura do consumo, cultura do efêmero, condena tudo ao desuso mediático. Tudo muda ao ritmo vertiginoso da moda, posta ao serviço da necessidade de vender. As coisas envelhecem num piscar de olhos, para serem substituídas por outras coisas de vida fugaz. Hoje a única coisa que permanece é a insegurança, as mercadorias, fabricadas para não durar, resultam ser voláteis como o capital que as financia e o trabalho que as gera.

O dinheiro voa à velocidade da luz: ontem estava ali, hoje está aqui, amanhã, quem sabe, e todo trabalhador é um desempregado em potencial. Paradoxalmente, os shopping centers, reinos do fugaz, oferecem com o máximo êxito a ilusão da segurança. Eles resistem fora do tempo, sem idade e sem raiz, sem noite e sem dia e sem memória, e existem fora do espaço, para além das turbulências da perigosa realidade do mundo.

Os donos do mundo usam o mundo como se fosse descartável: uma mercadoria de vida efêmera, que se esgota como esgotam, pouco depois de nascer, as imagens que dispara a metralhadora da televisão e as modas e os ídolos que a publicidade lança, sem tréguas, no mercado. Mas a que outro mundo vamos nos mudar? Estamos todos obrigados a acreditar no conto de que Deus vendeu o planeta a umas quantas empresas, porque estando de mau humor decidiu privatizar o universo?

A sociedade de consumo é uma armadilha caça-bobos. Os que têm a alavanca simulam ignorá-lo, mas qualquer um que tenha olhos na cara pode ver que a grande maioria das pessoas consome pouco, pouquinho e nada, necessariamente, para garantir a existência da pouca natureza que nos resta.

A injustiça social não é um erro a corrigir, nem um defeito a superar: é uma necessidade essencial. Não há natureza capaz de alimentar um shopping center do tamanho do planeta.

segunda-feira, 27 de setembro de 2010

"SE"


Se, ao final desta existência,
Alguma ansiedade me restar
E conseguir me perturbar;
Se eu me debater aflito
No conflito, na discórdia...

Se ainda ocultar verdades
Para ocultar-me,
Para ofuscar-me com fantasias por mim criadas...

Se restar abatimento e revolta
Pelo que não consegui
Possuir, fazer, dizer e mesmo ser...

Se eu retiver um pouco mais
Do pouco que é necessário
E persistir indiferente ao grande pranto do mundo...
Se algum ressentimento,

Algum ferimento
Impedir-me do imenso alívio
Que é o irrestritamente perdoar,

E, mais ainda,
Se ainda não souber sinceramente orar
Por quem me agrediu e injustiçou...

Se continuar a mediocremente
Denunciar o cisco no olho do outro
Sem conseguir vencer a treva e a trave
Em meu próprio...

Se seguir protestando
Reclamando, contestando,
Exigindo que o mundo mude
Sem qualquer esforço para mudar eu...

Se, indigente da incondicional alegria interior,
Em queixas, ais e lamúrias,
Persistir e buscar consolo, conforto, simpatia
Para a minha ainda imperiosa angústia...

Se, ainda incapaz
para a beatitude das almas santas,
precisar dos prazeres medíocres que o mundo vende...

Se insistir ainda que o mundo silencie
Para que possa embeber-me de silêncio,
Sem saber realizá-lo em mim...

Se minha fortaleza e segurança
São ainda construídas com os materiais
Grosseiros e frágeis
Que o mundo empresta,
E eu neles ainda acredito...

Se, imprudente e cegamente,
Continuar desejando
Adquirir,
Multiplicar,
E reter
Valores, coisas, pessoas, posições, ideologias,
Na ânsia de ser feliz...

Se, ainda presa do grande embuste,
Insistir e persistir iludido
Com a importância que me dou...

Se, ao fim de meus dias,
Continuar
Sem escutar, sem entender, sem atender,
Sem realizar o Cristo, que,
Dentro de mim,
Eu Sou,
Terei me perdido na multidão abortada
Dos perdulários dos divinos talentos, Os talentos que a Vida
A todos confia,
E serei um fraco a mais,
Um traidor da própria vida,
Da Vida que investe em mim,
Que de mim espera
E que se vê frustrada
Diante de meu fim.

Se tudo isto acontecer
Terei parasitado a Vida
E inutilmente ocupado
O tempo
E o espaço
De Deus.
Terei meramente sido vencido
Pelo fim,
Sem ter atingido a Meta.
-Hermógenes-

domingo, 26 de setembro de 2010

O pensamento ocidental: o acúmulo de sabedoria



Como diria o filósofo alemão: "Akkumulieren bin, was ich heute bin. Die beste seit meiner Vorfahren und ich bin auf diese Weisheit sitzt." ou, numa tradução mais geral: "me orgulho desta merda!"

quarta-feira, 18 de agosto de 2010

country music by heart!!!

Que assim seja!!!!


Shree Krishna Govinda Hare Murare!

Incomensuráelmente inspirado nesse instante por nada além do que não compreendo, encerro ou encontro.. ..humildemente vislumbro e contemplo esse momento.

Sendo a consciência estrela que abrasa toda frieza e toda escuridão sinto como que um calor profundo e envolvente desde meu coração. Como água quente ele tira a essência e o sumo clarificado da planta do chá, extrai o significado deste momento aspirando o presente de todos os momentos.

Que o medo e a infelicidade da perda apegada possam cada dia menos tocar-me!

Que eu entenda simples e quietamente a natureza libertadora do amor na forma da prática intencional amorosa, o que posso alcançar atualmente com minha baça potência espiritual.

Que meus erros também se embebam de amor: acolhidos, corrigidos, recuperados, superados... .. sem culpa ou arrependimento, pelo poder da ação e do presente eterno e criativo.


Assim seja!!!

quinta-feira, 13 de maio de 2010

13 de maio, escravidão


Os escravos negros foram libertados pela princesa branca , tá certo que sem emprego nem nada, mas... né.. livres em fim..
Nem que seja para aparecerem como vilões depois de um bom tempo na veja. Os escravos foram libertados, mas as mentes.. coitadinhas.. escravas da burrice, escravas do bigbrother na grobo..

Fica quietinho filho! pára de chorar!! vai ver tv vai... vai ver as máximas do silvio santos, do faustão, gugu..entre outros seguidores de Hegel..

E viva o fim da escravidão!!!

"..emancipate yourself from mental slavery none but ourselves can free our minds..."

sábado, 8 de maio de 2010

"Clean capitalism"?! Uma ova...



Texto interessante que recebí por email um dia desses, fala do "Clean CApitalism" a nova onda do momento... energia limpa e um monte de coisas, mas sem mudar a relação predátória que promovemos com o outro e com o meio...

Se sentir deprimido com o texto compre uma roupa nova, coma um bigmac.. ou.. LEIA MAIS...
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(Genoino Pravda, Sem Sentidos)


Imbecil talvez seja o adjetivo mais adequado para ambientalistas reformistas e toda essa classe de moderados celenterados que vivem a afirmar descaradamente que viveremos em um mundo melhor se estados e corporações capitalistas adotarem tecnologias movidas a energia limpa e produzidas com recursos renováveis! Das duas, uma, ou sofrem de falta de imaginação ou compartilham do afã burocrata de defender os "direitos" dos exploradores de explorar. São uns imbecis por serem consciente ou inconscientemente coniventes com o sistema político-econômico que ameaça todas as outras formas de vida incluindo a longo prazo a sua própria forma.

As implicações da adoção de tecnologias limpas e renováveis em um sistema estruturalmente desumano e predador são simplesmente hecatômbicas. Se estados nacionais e conglomerados corporativos conseguirem livrar-se de sua dependência de combustíveis fósseis e poluentes, não só um futuro melhor não estará assegurado como provavelmente estaremos a caminhar para o fim de nossa existência a passos ainda mais acelerados. Neste ponto certamente muitos dos que lerem esse texto pensarão: "não pode ser...", pense de novo.

A maior parte certamente lembra-se da história de Matrix, e do porque a máquinaria global automatizada foi forçada a assumir a medida vampiro-burguesa de utilizar humanos como baterias - percebendo-se ameaçada pela supremacia das máquinas a humanidade decide lançar no céu um composto químico capaz de impedir que a energia solar seja utilizada. Energia limpa movendo máquinas de moer vidas, puxar o plug da tomada solar não seria suficiente àquela altura, será suficiente agora.

Mas deixe-me descrever um futuro não tão distante quanto esse em que máquinas adquirem consciência de classe e passam a imitar o capitalismo de estado soviete - um futuro muito mais próximo, possível e provável em que meios energéticos "limpos" garantem que a visão de mundo capitalista de predação universal venha a se consolidar em proporções catastróficas.
Imagino colheitadeiras gigantes movidas a energia solar poderiam trabalhar 24 horas por dia (carregando baterias super-eficientes, capazes de uma autonomia de 12 horas da luz solar, trabalhando pelo período em que o sol não possa alcançá-las) em monoculturas transgênicas de todos os tipos, esgotando o solo e produzindo comida perigosa para uma população humana crescente (bem, talvez não para o grosso da população existente, mas para quem ainda puder pagar por ela).

Como previsto em Matriz os avanços na inteligencia artificial permitirão maior desenvolvimento na automatização de sistemas info-eletrônicos-mecânicos, até um ponto em que as "colheitadeiras limpas" conduzirão a si mesmas tornando a profissão de motorista de colheitadeira obsoleta. Provavelmente também a manutenção mais eficiente e mais barata será provida por máquinas de diagnóstico e reparação. Empregos?! Existem ainda alguns no alto de torres cercadas por cercas eletrificadas, alimentadas por eficientes geradores savônios. A elite de executivos come e vive muito bem confinada servida por seus poucos empregados, enquanto os escombros humanos do que um dia foi a classe média afundam na miséria no maravilhoso mundo futuro de energia limpa. Não penso ser possível como em Matrix a supremacia das máquinas pelas máquinas, ainda que em determinado grau de desenvolvimento tecnológico, capitalistas humanos e máquinas possam vir mesmo a se fundir, o paraísos virtuais descritos por Hakim Bey, este upgrade da sociedade do espetáculo talvez os leve à cyber-gnose,
talvez não.

Mas voltemos para o momento em que o capitalismo tal qual conhecemos adota "tecnologias limpas", neste tempo futuro que nos é muito familiar. Com a adoção destas tecnologias provavelmente o número de pessoas com doenças respiratórias diminuirá, mas nem de longe pensem que a taxa de destruição de florestas como a Amazônia conhecerá qualquer redução: espécies animais

e vegetais desaparecerão da mesma forma sob a necessidade constante de produzir mais e mais bens de consumo. A fronteira agrícola não pode conhecer fronteiras: árvores centenárias não serão derrubadas para produzir carvão vegetal, mas para darem lugar a plantações de monocultura e fábricas, galpões de confinamento onde milhões de cabeças de gado confinados esperam a morte no abatedouro.

Provavelmente o ramo da segurança privada terá uma alta crescente, a elite empresarial, e os remanescentes da classe média (formada por poucos serviçais, técnicos ultra-especializados e outros que se encarregam das poucas prestações de serviços ainda não automatizadas) viverão em um mundo

limpo cada vez mais desigual no qual cidades-favelas com 30 milhões de habitantes se espalham pelo terceiro mundo. Todos, é claro, contando agora com formas de produção de "energia limpa", mas com outros recursos (como alimentação, saúde e moradia) cada vez mais escaços. As cidades se tornarão lugares violentos disputados por pequenas tiranias locais: gigantescos barris de pólvora onde têm início revoltas, levantes e pilhagens. Alguns destes grupos talvez se levantem contra corporações-estados ávidos pelos recursos que dependendo da aceleração da produção e do consumo desvinculados do lastro dos combustíveis-fósseis -
Com uma capacidade energética inesgotável que permite que fábricas, campos e minas automatizadas operando sem parar - não tardarão a escassear. E o mundo de energias limpas caminha agora por uma via iluminada na direção do colapso.

Usinas nucleares serão então obsoletas e todo o lixo nuclear agora estará disponível para que exércitos corporativos, facções fundamentalistas autoritárias de todo tipo possam fazer bombas potentes capazes de arrasar com seus inimigos onde quer que se encontrem. Então será a época dos tanques de guerra, aviões, navios e helicópteros movidos a energia hidro-solar (100% não-poluentes) a se arrastarem pelos quatro cantos do mundo, garantindo que certos grupos de interesse imponham sua agenda cuja prioridade é explorar as poucas reservas de água não contaminada em aquíferos subterrâneos, travando guerras muito semelhantes aquelas que vemos hoje pelo petróleo.

Querem que acreditemos que para o bem deste projeto de mundo tudo o que é necessário é que paremos de poluir e continuemos a trabalhar e a comprar, nada mais. Como se a miséria a que serão levadas populações inteiras pelo capitalismo globalizado e energeticamente limpo não fosse, como hoje o é, responsável por novas ondas poluição relacionadas ao trabalho/consumo em outras partes do mundo. Como se um exército de miseráveis fosse partilhar de sua consciência limpa vivendo na ruína e na sujeira de sua sagrada sociedade de classes.

Temos o dever de desconfiar quando políticos hipócritas como Al Gore vêm até nós (todo vísceras) com algumas "verdades inconvenientes". Quando está claro que a mais inconveniente das verdades continua trancada a sete chaves e escondida do conhecimento do mundo: o capitalismo a longo prazo, com ou sem energias renováveis, só pode nos levar à ruína. Estes futuros limpos e vívidos que nos vendem hoje noticiários e propagandas de tecnologia de ponta, não passam de ficções científicas e de apologia ao progresso capitalista, nada mais são do que ilusões marqueteiras para que permaneçamos dóceis e concordantes, favoráveis ao seu projeto de desenvolvimento e omissos em relação à agenda de predação global.

Eles talvez sejam vívidos por uns poucos herdeiros de nossas elites, enquanto a imensa maioria de nós chafurdará em favelas pestilentas de um mundo de fome - talvez assistam noticiários sobre nós em paredes de tela plana de alta definição no alto de suas torres e em seus condomínios fortificados, enquanto nos matamos bem longe de seus arranha-céus não poluentes - na barbárie de um mundo de capitalismo tardio.

Não podemos desejar um capitalismo mais limpo, já que seria uma contradição lógica - a verdade mais inconveniente é que como um grande monstro mecânico e assimilador que é, o capitalismo jamais será limpo do sangue daqueles que devora por suas muitas bocas cheias de engrenagens. Independente das formas de energia que o alimenta, as esteiras de produção capitalistas exigem uma constância capaz de reivindicar para si tudo aquilo que possamos eventualmente precisar para viver (e muito mais que isso). A criação da escassez é a alma do negócio.

Desejar um futuro em que o capitalismo seja destruído e derrotado é a única solução, talvez as ações movidas por esse desejo se revelem nossa única possibilidade de um futuro digno a médio e longo prazo. Nesse sentido penso que ser protópico não é uma opção, é sim uma necessidade!